As mortes na França não são explicáveis ou aceitáveis. Foi
um ato terrível. Mas temos que repensar alguns valores que temos dentro de nós.
Talvez a palavra de ordem não seja “liberdade” e sim “respeito”.
Charlei Hebdo me fez pensar. Alguns textos na internet também
me fizeram. Até o Rafinha Bastos me fez pensar também. Existe uma bandeira da
liberdade de expressão sendo levantada, e que eu apoio muito. Mas é impossível
se falar em liberdade sem se perguntar: “Até onde vai a minha liberdade”?
Eu me questiono sim porque sempre acreditei que minha
liberdade termina onde começa a do outro. Até que ponto a “piada” é uma boa
desculpa para humilhar? É totalmente ofensivo falar de negros como “macacos”.
Mas se for num contexto humorístico, tudo bem? Isso está certo?
Somos de uma geração em que era normal fazer piada de tudo.
O negro, o gordo, o feio, o crente, o estranho. Nossa infância foi marcada por
rótulos e apelidos que na maioria das vezes não agradavam. Mas aprendemos a
conviver e também a revidar. Por isso, é tão difícil para essa mesma geração
começar a enxergar tudo isso como uma “falta de respeito”. Então, o que vemos
se difundir é o discurso do “politicamente correto”, “na minha época não era
assim e ainda estamos vivos”... Confesso que tenho um pouco de medo de me
entregar a esse pensamento e não acompanhar a evolução das relações humanas.
Afinal, há de se esperar que conforme o tempo passe as coisas melhorem. Temos
que nos tratar melhor, o ser humano há de ser mais tolerante, há de amar mais e
se livrar de discursos de ódio. E o ódio cresce sorrateiro em baixo de
brincadeiras inofensivas. A brincadeira que menospreza uma raça, um credo, ou
um estereótipo é nociva sim, porque marca, ofende, humilha.
Por isso chego à conclusão que tão importante quanto a
liberdade, é o bom senso. Aceitar as pessoas como elas são, sem querer lhes
empurrar suas próprias convicções é essencial para se conviver em sociedade. A
sua liberdade esbarra na liberdade das outras pessoas. Como você quer levantar
a bandeira da liberdade de expressão se você ri das convicções alheias? Se você
tira sarro de quem é diferente? Quando você menospreza ideias ou até a
aparência de uma pessoa, você está praticando uma forma de “censura”. Então de que lado você está? Respeito é o ato
de aceitar que cada um é livre para ser e pensar da forma que quiser. Então, só
é livre sem ser hipócrita aquele que sabe respeitar.
Temos que aprender a respeitar a diversidade desse mundo.
São tantas crenças e raças que nos diferem. Você não é melhor porque lê a
bíblia, ou mais inteligente porque não acredita em nada, nem mais interessante
porque se posiciona a respeito de tudo. Respeite, tolere, aceite.
Se nós, com toda nossa “cultura” ainda não aprendemos a ser
tolerantes, imagina esse povo?! O resto do mundo vive invadindo os países islâmicos
e trazendo guerra, fermentando o ódio. O que esperar de um povo que nasce em
meio a tanques e bombas, que veem desde muito cedo seus amigos e parentes
morrendo? Para eles, 12, 20 ou 100 pessoas na França não faz diferença. Eles
não têm sua criação, eles não tem os seus valores. E comparados à você, eles
parecem loucos. Talvez até sejam. Mas a pior coisa que pode acontecer nesse
momento é essa onda xenófoba que está se instalando. Mais ódio, mais guerra,
mais mortes. É um ciclo eterno. Um querendo provar que é mais forte que outro.
Nações que querem mostrar seu poder. Nenhuma vida vale nada nesse jogo.
Hitler quis exterminar toda uma raça. Então preste muita
atenção ao seu próprio discurso quando fala em “acabar com esse povo”, por que
a ideia é a mesma.
Somos todos seres humanos e devemos nos respeitar. Simples
assim! Esse é o único caminho para a paz. Dar pra receber!
