Primeiro eu conheci a paixão!
Isso foi ha muito tempo. No tempo em que nossas idades
não nos deixavam entender. No tempo em que a falta de maturidade me fazia
sofrer, por cada delírio que a paixão me causava.
Não era lindo como todo
romance, era compulsivo e forte. Eu o queria tanto, que nem sabia ao certo o porquê.
Não era o jeito como me tratava ou nada do que ele fazia. Era mais pelo que ele
provocava em mim. Era uma coisa do toque, da carne, do cheiro.
A tudo chamava
de amor, o ciúme, a marcação cerrada, o sofrimento. E era sim meu jeito de amar, em cada pedacinho
de exagero, em cada vontade exacerbada, em cada entrega impensada. Era como
gula ou frenesi, uma extensão de mim que não me cabia, que não me vestia, que
me fazia sentir frio e me jogava ao chão.
Não era alegria ou compensação, era
tormento que me virava a cabeça, me tirando do eixo, deixava-me pelo avesso.
Não era outro, era eu, e sem eu, não me sentia completa, eu precisava dele.
Assim, desse jeito confuso mesmo!
Era como vício, não me fazia feliz, não me
saciava por completo, mas eu precisava estar ali, com ele, para ele, entregue. Era
um alívio estarmos juntos, como se só em seus braços a vida fizesse sentido.
Não é amor, é doença – Era o que os outros diziam. Mas eu não me sentia doente.
Sentia-me em êxtase, dentro da minha paz atormentada, no único lugar em que eu
queria estar: junto dele! E com ele eu pisaria descalça no inferno, me mudaria
para o outro lado do mundo, largaria tudo, deixaria o mundo, deixaria a mim!
E
foi durante muito tempo assim, essa explosão geral de sentimentos, com a agonia
da espera, somada a intensa alegria da chegada, com o mortal sofrimento da
briga. Não entendia o talvez ou o novo, ou outra coisa. Não me abria ao mundo
porque meu mundo era ele.
Minha paixão era repleta de extremos, complexos e
imperfeitos, quase que impossíveis de serem explicados ou compreendidos, porque
só quem ama com fervor da loucura sabe o que é que eu sentia.
Depois eu não sabia explicar o que veio!
Vieram os dias com suas rotinas, e vieram os anos com seu
passar voraz.
Veio a vida com suas linhas tortas e vi que nenhum desespero é
eterno, nenhuma agonia que não cesse.
Talvez fosse a idade, talvez a ansiedade,
certo é que não há nada que o tempo não amenize e não cure. E a doença da
paixão é dessas. Conforme o tempo passa, ela deixa de arder, de desesperar, e a
tormenta dá lugar à uma coisa mais calma, mais sutil.
E numa outra forma o sentimento se mostra, numa roupagem mais discreta, porém mais terna e forte. O amor não é desses que te faz se jogar na frente de um trem por outra pessoa, mas sim daquele que te faz dar a vida, se preciso for, pela vida do seu amor. É um estranho desapego. Eu não preciso mais dele, estou aqui para uma troca justa, que a todo instante muda, mas mesmo assim permanece amor em sua essência.
O amor não aparece a todo momento, em cada hora do dia. Ele tem seus momentos, seus nuances, e se mostra forte e absoluto nas horas mais difíceis. Vence muros, barreiras, mares, vendavais... Se finge de morto, renasce em sorrisos, em cheiros e em lembranças. Se veste de branco, perdoa, segue adiante. O amor é desses que nos fazem pessoas melhores. O amor é desses que nos fazem criar arrependimentos quando fazemos algo errado.... é desses que cura doenças e move montanhas... é desses que se leva da vida e pelo qual vale a pena viver!
Amores e paixões não são escolhas!